Ao término das pesquisas arqueológicas na região da PCH Nova Aurora e Goiandira, Goiás, bacia do Rio Veríssimo, pela equipe da Arqueologia Brasil pode-se afirmar que as ocorreu um avanço significativo na compreensão da ocupação humana nessa região a partir da identificação de sete assentamentos. Esses sítios, sintetizados na tabela abaixo, possibilitaram estabelecer pelo menos 4 horizontes de ocupação bem nítidos, três associados às ocupações pré-coloniais e um quarto, que remete à presença de uma ocupação mais recente, de tempo histórico.
Somado a isso, pôde-se avançar no reconhecimento do patrimônio natural e cultural dos municípios presentes na área do empreendimento - Nova Aurora, Goiandira, Catalão e Ipameri, todos nos estado de Goiás - e divulgar de forma ampla, democrática, os resultados das pesquisas desenvolvidas.
Os horizontes líticos estão presentes nas ocupações dos sítios líticos Morison, Hortolino e Hollywood, Peba e Presidente. A presença de grupos agricultores, testemunhada por lâminas de machado polidas e um único fragmento de borda coletado no sítio Ernesto, pode ser, a princípio, associada a uma ocupação dos grupos portadores da indústria cerâmica conhecida como Aratu na região.
Os vestígios materiais da ocupação histórica são bem mais recentes. Eles testemunham uma ocupação de meados do século XX e estão expressos em uma base de alicerce, um amontoado de telhas e paredes de adobe desmoronadas que foram cuidadosamente decapadas e registradas pela equipe.
A identificação desses assentamentos e das áreas com ocorrência de vestígios arqueológicos foi possível diante da perspectiva teórica adotada de não aplicar um olhar restrito àqueles sítios mais representativos em função da sua complexidade, importância, visibilidade, densidade, ou por serem conhecidos pela população rural na Área Diretamente Afetada (ADA), na de influência direta (AID) e naquela de influência indireta (AII).
O objetivo das prospecções nessas áreas de influência foi obter um conhecimento amplo da região, do seu ambiente e das populações que ali viveram desde época pré-colonial. Assim, ao término dos trabalhos de campo nenhuma das propriedades deixou de ser vistoriada e todas as áreas que serão ocupadas quando do preenchimento do reservatório ou obras correlatas foram percorridas de maneira sistemática e exaustiva pelas equipes de pesquisadores. Isso porque, como já comentado, considerou-se que os diversos assentamentos e seus horizontes de ocupação representam um contexto cultural amplo e a existência de um sítio em determinado local pode ser vista como relacionada ao ambiente circundante e também aos fatores simbólicos e cognitivos.
A utilização, conforme proposto no projeto científico, de varreduras intensivas e da cobertura total full-coverage survey nas áreas de amostragem propiciou um grau de detalhe nos trabalhos em superfície e sub-superfície, que permitiu a localização de todos os sítios arqueológicos existentes em superfície e de grande parte daqueles assentamentos em sub-superfície, possibilitando entender a distribuição dos sítios arqueológicos relacionados aos sistemas de assentamento presentes na bacia do rio Veríssimo no trecho em questão. Essas áreas de amostragem foram definidas devido às suas potencialidades paisagísticas diferenciadas e que representam padrões recorrentes na região de estudo.
A metodologia aplicada às prospecções arqueológicas também fez uso das informações orais obtidas durante entrevistas e conversas informais realizadas com moradores da região.
Os locais situados nas áreas de influência das citadas PCHs onde foram identificados vestígios arqueológicos por intermédio dos procedimentos de prospecção adotados foram objeto de procedimentos de pesquisa destinados a caracterizar a densidade de material no local e a profundidade e extensão atingida, e os tipos de vestígios presentes.
Para cada sítio encontrado foi feito um trabalho de cadastramento, obtendo dados precisos sobre sua natureza, morfologia e estado de conservação. Para tanto, foram preenchidas fichas de cadastro, fichas de material arqueológico, dados para localização do sítio em cartas por coordenadas obtidas com GPS, além de documentação fotográfica e gráfica (desenho de planta e croquis), elaborando-se também, para cada assentamento, um histórico das intervenções antrópicas sofridas, causadas pelas sucessivas formas de ocupação humana que se desenvolveram na área.
De uma maneira geral, o trecho pesquisado comporta um cenário com uma paisagem formada por relevo de morrotes, com altitudes variando entre 550 a 680 metros e áreas planas que fazem parte da planície de inundação junto ao rio Veríssimo. Essas áreas planas oferecem cobertura vegetal de campo sujo e, nas margens do rio, uma mata ciliar em lenta recuperação. Nas áreas de vertentes, manchas de mata mais ou menos fechadas ainda podem ser encontradas. Contudo, as pastagens ocupam grande parte da área que serão preenchidas pelo reservatório desses empreendimentos. As erosões laminar e linear não são raras. Elas formam canais de drenagem e de enxurradas que levam ladeira abaixo os materiais dos horizontes mais superficiais do solo quando das chuvas. Nesses locais observa-se, quase sempre, a presença maciça de cascalhos, calhaus e matacões.
Além da caracterização ambiental atual desse trecho da bacia do rio Veríssimo, pôde-se avançar na questão paleoambiental. A associação dos vestígios arqueológicos com as evidências pedológicas e estratigráficas coletadas na área permitiu identificar dois períodos climáticos bem definidos e datar de forma relativa os horizontes de ocupação líticos.
No sítio Morisson são dois os pisos de ocupação. O primeiro deles, mais recuado, estava associado aos níveis estratigráficos mais profundos, aqueles em que predominou um clima seco em que não haveria um grande desenvolvimento da cobertura pedológica. Nesse momento mais seco o material arqueológico estava associado a cascalhos de seixos rolados de quartzo oriundos do rio Veríssimo ou de córregos próximos, que devido ao clima estavam expostos plenamente.
Após esse período de ocupação surgiram mudanças climáticas que aumentaram a umidade, fazendo com que a sedimentação sobre o pacote arqueológico passasse a atuar, isolando o horizonte arqueológico mais antigo daquele mais recente. Posteriormente, em período provavelmente mais úmido, deu-se a segunda, e mais recente das ocupações líticas. Para o sítio Presidente, contexto semelhante pode ser diagnosticado. A situação de formação pós-deposicional decorreu de um processo em que durante o primeiro período de ocupação, mais antigo, a cobertura pedológica da área estava mais associada ao afloramento rochoso. Com o passar dos séculos e com as mudanças climáticas, outros processos passaram a atuar, formando um pacote de sedimentos oriundos das partes mais altas rumo a base e aqueles depositados pelas cheias do rio Veríssimo e pelo córrego do Bálsamo.
Após esse longo período estéril, teve início uma nova etapa de ocupação, com características tecnológicas diferenciadas, agora com um material onde a cadeia operatória de lascamento era mais ampla, com lascas, núcleos, blocos, estilhas, detritos etc; situação distinta daquela identificada na ocupação mais antiga onde apenas detritos foram evidenciados.
Pôde-se perceber pela análise da forma de implantação dos sítios identificados que a ocupação das áreas de terraço e de seu entorno foi uma constante. Principalmente para os horizontes líticos, onde havia um forte atrativo pelas fontes de matéria-prima: as cascalheiras. Nessas cascalheiras, ou em suas proximidades, estavam implantados vários dos assentamentos pré-coloniais identificados. Nos horizontes mais antigos as cascalheiras não eram somente utilizadas como fonte de matéria-prima para o preparo e a pré-forma de artefatos. As populações que ali circulavam também confeccionavam e utilizavam suas ferramentas líticas nesses locais. Ou seja, havia uma gama maior de atividades cotidianas em andamento. Isso fica bastante claro no sítio Morisson e, em menor medida, no Hollywood. Tal utilização é distinta daquela desenvolvida pelas ocupações líticas identificadas nos sítios Peba e Presidente, nas duas ocupações do Hortolino e na mais recente ocupação do sítio arqueológico Hollywood. Nessas ocupações é significativa a quantidade de detritos e estilhas, somada a quase ausência de artefatos, o que indica a utilização desses locais para o preparo de artefatos que seriam utilizados em outros pontos da paisagem.
A ocupação ceramista da área é bem particular. Ela se caracteriza por uma grande quantidade de artefatos polidos coletados e quase nenhuma evidência cerâmica. Essa situação permite supor a presença de áreas de cultivo. Os socadores e machados identificados estariam sendo utilizados no preparo do solo para o plantio e não para a moradia. A(s) aldeia(s) estava(m), provavelmente, mais distante(s), fora da ADA, em algum ponto na AID ou AII não identificado no transcorrer dos trabalhos de campo.
Como se vê, as evidências arqueológicas na área das PCHs são tênues, esparsas, espalhadas por vários trechos e testemunham a circulação pela região em busca de alimento, contatos sociais e as mais variadas atividades cotidianas. Esse conjunto de evidências, composto pelos sítios e ocorrências identificados, revela que a região do rio Veríssimo não foi densamente ocupada em tempos pré-coloniais. Os grupos de caçadores e coletores se serviam das cascalheiras para a busca por matéria-prima adequada para o lascamento das suas ferramentas de pedra, sem, contudo, se fixarem por períodos mais longos. O mesmo teria ocorrido com as populações agricultoras que, aparentemente, se utilizavam das áreas planas, as planícies de inundação, como áreas de circulação ou plantio e não para moradia.
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